Luanda num quadro


Vi aquele quadro numa exposição de arte na ilha de Luanda e logo pensei que ele dava uma boa história. Basta olhá-lo para ver que é Luanda, mas uma Luanda com gente dentro, como se fosse um cartaz a convidar-nos a entrar e a conviver. Logo descobri que aquela gente, como o prenunciavam as suas cores dominantes, quentes e explosivas, era uma gente feliz. Percebi então que aquele quadro podia encerrar a chave para a revelação de um sonho grandioso!

Quando muito novo mergulhei na Bíblia e nos seus heróis, um personagem me cativou acima de todos os outros: José, o undécimo filho de Jacob que se distinguiu pela sua capacidade de interpretar sonhos, particularmente o sonho do Faraó cuja elucidação alcandorou José ao cargo de Provedor, um dos braços direitos do monarca egípcio. O sonho das vacas magras que devoraram as vacas gordas... como todos sabemos, tantas vezes essa história tem sido repetida. Ao contemplar o quadro de Virgínia Romão logo me assaltou a ideia de uma história bíblica como aquela, mas vivida em Angola, porque não? Posso usar o seu quadro para ilustrar uma história, Virgínia? Mas isso parece-me um sonho! Pois um sonho será!

Procurei desenhar, agora por palavras, uma família angolana, tinha de ser tradicional e ao mesmo tempo pujante, vigorosa, vibrante, de onde emergiria um José que iria longe, interpretando sonhos! LAIRES é o nome da família, um nome que conheci bem e era o perfeito anagrama de ISRAEL o outro nome dado a Jacob depois da sua luta com o anjo! A história de O Intérprete começa com a história da família Laires e vai caminhando até ao palácio presidencial onde o Presidente uma noite tem um sonho:


O Presidente acordou naquela manhã com um estremecimento. Estava a sonhar alguma coisa que seguia com o maior interesse, mas, no instante de despertar, tudo se desvaneceu como uma memória que se apagasse sem deixar rasto. Fez um esforço para se lembrar de alguma imagem da sequência que visionara, mas nada do que se passara no subconsciente subiu à tona do consciente. Levantou-se devagar, tentou recordar-se, e no gesto da recordação levou a mão ao rosto, sentindo a necessidade de passar a lâmina pela barba que lhe crescera durante a noite e lhe devolvia através do espelho a revelação da sua idade avançada. Passou água quente pelas faces, espalhou creme amaciador e deitou um pouco de gel azul-celeste na palma da mão, que de seguida friccionou com a outra, produzindo de imediato uma espuma cremosa e espessa que espalhou cuidadosamente, como se estivesse a moldar o próprio rosto em gesso alvo.

Olhou para o espelho e de repente, como se este fosse um ecrã onde se projetava o sonho que o despertara com aquela sensação de algum desconforto, começou a reconstituí-lo.


É claro que é preciso ler a história para nos inteirarmos do que ia no subconsciente do Presidente. Naquela manhã, porém, era dia de conselho de ministros, e “uma hora mais tarde o Presidente dava início à sessão com os seus ministros que zelosamente faziam desfilar diante de si projetos de desenvolvimento sustentável, a palavra de ordem que, de tanto repetida, já ninguém sabia exatamente o que significava. Nem era preciso, necessário mesmo era avançar, fazer coisas novas, transformar o país, ano após ano, semana após semana, dia após dia. Muitas vezes sentia que se enganara, mas, como um artista que dá uma pincelada na tela e depois outra até compor um quadro, podendo sempre corrigi-lo, o Presidente perseguia a perfeição, e orgulhava-se da tela enriquecida por tantas paletas de tintas gastas e, quando recuava, apenas para ganhar a noção de perspectiva, reparava que faltava sempre acrescentar mais um traço aqui, outro acolá...

Lembrou-se de um outro quadro, o Retrato de Dorian Gray, demasiado perfeito, demasiado belo, reproduzindo um jovem que deixara de o ser, e voltou a ser dominado pela sensação incómoda do sonho que o afligira.

Ouvir as palavras ardorosas e empenhadas dos seus ministros não teve o condão de lhe devolver a tranquilidade. Como habitualmente, seguia as suas explanações enquanto revirava as páginas dos projetos que, com algum esforço de concentração, ia avaliando. Naquele preciso momento, o ministro das obras públicas apresentava um megaprojeto rodoviário. O Presidente deteve-se numa das páginas do documento aberto diante dos olhos, que apresentava em detalhe a antevisão gráfica de parte dessa obra faraónica. Voltou a lembrar-se do sonho. Tirou os óculos, que depositou com impaciência controlada sobre o dossiê.

— Esta noite tive um sonho...

O Presidente levantou o olhar do dossiê para os seus interlocutores e leu nos seus rostos o espanto. As bocas, geralmente cerradas e contidas, entreabriram-se, quase escancarando de incredulidade.

O Presidente esboçou um leve sorriso como se procurasse algum encorajamento antes de prosseguir:

— É verdade, tive um sonho e gostava de ouvir a vossa opinião. Talvez não seja tão a despropósito.

Com palavras muito simples, contou o estranho sonho que vira no espelho como se diretamente projetado pelo seu subconsciente. Os ministros escutavam-no com o maior assombro, não se ouvindo sequer uma mosca.

— Então? O que acham?

Como se movidas por um botão automático, todas as cabeças se voltaram para baixo, de olhos cerrados ou vidrados nos papéis que tinham à sua frente, sem descortinarem uma letra.

— Então? Ninguém me diz nada?


Será José Laires a decifrar o enigma..., mas tudo isso vai ter um preço. Não tão grande como o que terão de pagar os meus amigos que encomendem o livro à Amazon porque, tão cedo, não haverá a desejada edição em papel. Aqui deixo o linkpara irem directamente até lá:


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