Obra prima

September 9, 2018

 

Carlos Celestino da Silva tinha tudo para ser um grande artista. Desde pequeno que aproveitava todas as folhas ou retalhos de telas para desenhar as formas que mais o seduziam na abundante natureza à sua volta a que depois acrescentava a cor dos guaches que desfazia e  misturava nos seus godés, onde mergulhava com  desvelo e carinho os pinceis maltratados que ia coleccionando. Desde cedo começou a assinar o seu nome no canto direito das aguarelas que logo lhe pareciam ganhar outro valor sem que no entanto alguma vez ficasse completamente satisfeito com a obra produzida.

 

Foi uma antiga namorada do artista quem me contou porque passou a assinar as suas obras com o nome artístico de Calú. Para sobreviver, porque foi sempre difícil a vida de artista, ele andava de escola em escola a iniciar crianças na arte da pintura. Foi a miudagem que tudo gosta de simplificar quem começou a chamá-lo por esse diminutivo. Para Carlos Celestino aquele novo nome foi como um segundo baptismo desta vez para a graça da sua genialidade.  Não foi todavia isento de espinhos o caminho para o reconhecimento do seu génio artístico. Procurando aprender e apreender todos os segredos da arte a que se devotara de alma e coração, Calú foi ouvindo o que os mais sábios conhecedores da arte lhe diziam ser o mais importante neste ofício. A obsessão na busca do objecto a retratar, o impulso para reproduzir sem limites, por amor, por paixão... a insatisfação que deve constituir o cilício do verdadeiro artista, o desafio a fazer sempre mais e melhor quando termina sobre a tela a ultima pincelada...

 

Calú dizia, assim me contou a antiga namorada que sempre conversava com a sua obra enquanto pintava... e nem sempre essas conversas eram pacíficas, algumas acabavam mesmo num assomo de ira com o artista jogando os pinceis e os godés pelo ar, esparramando tintas que escorriam depois pelas paredes como as lágrimas tristes de um palhaço que para fazer rir tantas vezes tem de chorar.

 

Foi num desses dias de fúria que Calú descobriu que não era fora, na natureza que o envolvia como a placenta de um novo ser que poderia encontrar o que tanto desejava pintar mas dentro de si, na sua alma invisível em que ele adivinhava o infinito. Em frente da tela que acabara de colorir ele voltou a impregnar o pincel no azul, depois no branco, ora com pinceladas enérgicas ora abandonadas como se a mão fosse comandada por um outro artista subitamente saído de dentro de si, vendo a tela mudar e transformar-se sucessivamente. A tela tantas vezes matizada passou a ser a sua obsessão, o seu desafio, a criação de que não podia afastar-se, nem mesmo para dormir. Cobria-a com um lençol quando se deitava e mostrava-a esplêndida à luz do seu atelier quando um novo dia começava. Ele a amava em segredo, era a sua paixão e por ela finalmente morreria.

 

Fui à apresentação daquela  pintura hoje considerada como a sua obra prima. Ela lá estava feericamente iluminada para espanto e admiração geral: um pequeno quadro revelando um único ponto escuro que parecia vogar sob um fundo branco azulado que parecia não ter fim.

 

 

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