Um desfecho à Kurosawa

May 18, 2018

 

 Quando li os títulos dos jornais e as opiniões dos mais diversos comentaristas nos meios de comunicação social de Lisboa a Luanda, sobre o caso Manuel Vicente, fui assaltado pelas imagens do inesquecível filme de Akiro  Kurosawa, “Às Portas do Inferno”. Vi-o em Luanda nos primeiros anos da década de 50 e muitas vezes me lembrei dele ao longo de mais de 50 anos de vida passados em Tribunal: Um monge e um lenhador contam a um aldeão como viram um salteador assassinar um samurai e violar-lhe a esposa que com ele viajava pela floresta. Através do seu relato do que se passara no julgamento, assistimos aos testemunhos dos envolvidos (incluindo o do morto, através de uma médium). Só que todos os depoimentos, desde o do réu, o da mulher violada, e o do próprio samurai em espírito, são diferentes, consoante aquilo que cada um queria proteger, fosse a valentia e o valor de conquistador (o bandido), a sua vitimização perante os homens (a mulher), ou a honra (o samurai). O lenhador, que terá visto tudo, conta por fim a sua versão aparentemente desinteressada, desacreditando todas as anteriores. Mas logo se percebe que também ele teria razões para mentir. Assim, e este é o interesse do filme, cada história é mutuamente contraditória, deixando o espectador incapaz de determinar a verdade sobre os eventos. O nome da porta de Quioto, dando para o bosque onde se desenrolaram os crimes era  “Rashomon” (que dá o nome ao filme) e “Rashomon” passou a ser sinónimo  de qualquer situação na qual a veracidade de um caso é difícil de ser verificada devido a julgamentos conflituantes de diferentes testemunhas.

No final, porém, já não é a descoberta da verdade que conta mas a lição aprendida pelo monge quase abalado na sua fé com tantas mentiras e enganos e pelo lenhador que, afinal ,se apoderara subrepticiamente da adaga de prata que ferira de morte o infeliz samurai e que, por isso, tinha também razões para não contar toda a verdade.

Também neste caso de Manuel Vicente passou a ser secundário saber se houve crime, quem realmente o cometeu, quem beneficiou com ele, mas muito mais importante aclarar se o Tribunal de recurso português cedeu a “pressões” (o que tornaria política a sua decisão, um cinismo imperdoável num país que proclama aos quatro ventos a independência do seu poder judicial, com a insinuação implícita de que Angola não) ou se a sua decisão foi judiciosa, concluindo que foi o Ministério Público luso quem andou mal desde início por não ter respeitado um acordo internacional de que Portugal e Angola foram signatários. Neste caso terá sido feita justiça reconhecendo que Manuel Vicente só podia ser julgado em Angola. Mesmo que, pelo que se vai conhecendo do julgamento em Lisboa, com espantosas revelações e contra revelações, Manuel Vicente sairia inteiramente ilibado por total falta de provas.

Tal como no filme de Kurozawa, procurar saber no final quem é culpado ou inocente será uma busca porventura vã e tão subjectiva quanto possível. A lição a tirar, porém, é clara, como o sol que no final de “Rashomon” dissipa as nuvens e faz cessar a chuva sobre a arruinada porta de madeira, sob a qual se abrigavam os protagonistas. É que (no filme) todos roubam e enganam quando tem que ser, como sentencia o aldeão que ouve escandalizado toda a história mas logo a seguir não hesita em apossar-se do quimono que envolvia uma criança abandonada às portas daquele inferno cujo choro só se tornou audível quando a chuva parou. O sol brilha, também agora, sobre a Justiça angolana!

 

 

 

Publicado no semanário VANGUARDA  de 18 de Maio de 2018

 

 

 

 

 

 

 

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