O passado imprevisível

March 23, 2018

 

Já sabíamos que o futuro é imprevisível. É certo que há videntes que são capazes de entrever entre os sinais dos tempos acontecimentos que estão por vir. Mais frequentemente são os analistas e os investigadores que traçam cenários futuros, procurando antecipar o que pode estar para chegar. É uma actividade meritória esta de perscrutar o futuro a partir de constatações do presente. Ela ajuda os responsáveis por fazer as coisas acontecer a contornar escolhos que vão sendo sinalizados por esses preocupados e atentos observadores do dia a dia.

 

Dois factos políticos da passada semana suscitam o sentimento oposto: o de que o passado também pode ser imprevisível! Um desses factos registou-se na nossa terra, o outro na distante Polónia. Referem-se esses acontecimentos a duas personalidades históricas, ambas nascidas nos primeiros anos da década de vinte do século passado, sendo que, embora em momentos diferentes,  cada um foi Chefe de Estado. A título póstumo, um acaba de ser promovido a General e o outro deverá ser desgraduado dessa mesma patente.

 

Só me recordo de ter visto o Presidente Agostinho Neto envergando a farda militar presidindo a uma parada na Av. Marginal, já lá vão quarenta anos! A pose militar justificava-se pelo contexto de guerra civil com os outros movimentos de libertação, co-signatários dos Acordos para a Independência de Angola, em nome dos quais Agostinho Neto discursara também no encerramento do Alvor. Quis o destino que o armistício dessa guerra lamentável só chegasse muito tempo depois, recaindo sobre o seu sucessor o justo título de arquitecto da paz. Não obstante, o vulto de Agostinho Neto, político e poeta, profeta da liberdade do seu povo, muito mais do que marcial, é a grande figura civil do nosso país. A sua tardia promoção à mais alta graduação militar foi, por isso, uma daquelas surpresas que o passado pode reservar.

 

No caso de Wojciech Jaruzelsky, a sua desgraduação post mortem apresenta-se, evidentemente, como um ajuste de contas. O diploma legal que prevê e permite o rebaixamento, aprovado há poucos dias pela câmara baixa do Parlamento polaco abrange os militares que entre 1943 e 1990 “comprometeram a razão de Estado polaco”. Apagar o general de óculos escuros da lista de generais é a paga tardia da sua instauração da lei marcial em 1981 e a prisão do líder do partido pró-democracia, Solidariedade, Lech Walesa que lhe viria suceder como Presidente da Polónia. Ironicamente, o próprio Lech Walesa que teria sobejas razões para não lhe perdoar a prisão e as perseguições de foi alvo, por duas vezes apertou a mão do seu inimigo, a primeira aquando das primeiras eleições livres realizadas na Polónia em 1989 (permitidas por Jaruzelsky) e a segunda no final de um debate televisivo em 2005, repetindo, assim, o gesto que na década de 90 foi protagonizado por Nelson Mandela e Frederik De Klerk. Curiosamente, durante esse debate na TV, o já idoso general sugeriu a criação na Polónia de uma Comissão de Reconciliação semelhante à fundada na África do Sul pelo Presidente Mandela e pelo Arcebispo Desmond Tutu, para dar aos polacos uma oportunidade para se debruçarem sobre o seu passado. A ideia não foi por diante, porque o passado poderia guardar, talvez, demasiadas surpresas! Nove anos depois desse debate, Jaruzelsky foi levado a sepultar em cerimónia fúnebre digna de um grande chefe de Estado, com protocolo de honra, salva de tiros e discursos sobre o seu papel fundamental para a democratização do país. Pesa agora sobre ele a “razão de Estado” e a aversão dos que não lhe perdoaram a comunização da Polónia pela União Soviética e a brutalidade com que sufocou as revoltas democráticas. Permanece, porém, o homem mistério por trás dos seus peculiares óculos escuros que lhe escondiam os olhos afectados na adolescência pela neve da Sibéria, quando a família Jaruzelsky para ali havia sido deportada, obrigando o jovem Wojciech a trabalhar nas minas de carvão, num campo de trabalhos forçados.

 

Também Agostinho Neto conheceu a deportação em Cabo Verde, onde praticou medicina visitando doentes em locais recônditos da sua ilha de exílio, apurando a sua determinação de se ocupar dos problemas de atraso do seu povo. Depois, a História se encarregará de transmitir às gerações vindouras os seus avanços e recuos, as suas alegrias e frustrações, porque a vida de um político, mesmo não sendo militar, é uma luta constante. Nelson Mandela que nunca foi general... ainda durante a sua fase de vida clandestina e de fuga lera e estudara o clássico de Carl von Clausewitz Da Guerra que tão expressivamente associa a guerra à política. No seu “Mandela on War” o ensaísta sul africano Jonathan Hyslop descreve como Nelson Mandela, inspirado no pensamento de Clausewitz, soube traçar uma rota inteligente, regida por princípios, para criar uma sociedade futura viável no seu país.  No recentíssimo e extraordinário livro de Nelson Mandela/Mandla Langa, “A Cor da Liberdade – Os Anos da Presidência”, se observa como o seu pensamento tático e estratégico pode ser visto como uma forma de pensar declaradamente clausewitziana:  “Mandela percebeu que uma liderança responsável requer um reconhecimento das condições da guerra real, dos limites que ela pode atingir, e dos problemas que dela advêm, e não perseguir a quimera da guerra absoluta”. Este livro que é uma continuação de “O Longo Caminho para Liberdade”, completado pelo escritor Mandla Langa (com um prólogo de Graça Machel) mostra exuberantemente como a política é uma luta surda que não acaba jamais e em que as vitórias se sucedem aos revezes até à vitória final como proclamava Agostinho Neto. O livro cita mesmo e transcreve um poema do nosso primeiro Presidente, “Pressa” (“Impaciento-me nesta mornez histórica/das esperas e de lentidão...”) que teria inspirado Chris Hani, o impetuoso activista contra o apartheid varado por uma bala traiçoeira quando decorriam as negociações para a democratização da África do Sul, em 1993. Também ele postumamente galardoado em 2008 com a maior honra do ANC aos seus mais bravos guerreiros, a medalha de Isitwalandwe Seaparankoe (aquele que se adorna com as plumas da ave mais rara...). Entre os galardoados dois bispos anglicanos cuja palavra também contribuiu para deitar abaixo o muro do apartheid. O passado não deixa de nos surpreender!

 

 

 

Publicado no VANGUARDA  de 23 de Março 2018

 

Acima desenho de LUANDINO VIEIRA

 

 

 

 

 

 

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