Fala comigo! /Talk to me!

January 19, 2018

 

 

 

O homem falava sem parar, as mãos e os braços também eram convocados para acompanhar as palavras que brotavam em silêncio, apenas o incessante mexer dos lábios as denunciavam... O que estava ele a dizer, interrogava-se o miúdo diante da televisão muda, vítima de arreliadora avaria, de reparação continuamente adiada pelo pai que, pela noite fora, se deliciava com filmes legendados, apreciando o enredo, a força dos diálogos, os olhares, os gestos, o arrebatamento habitual das cenas finais que num segundo resolviam a trama lentamente desenvolvida. Cinema mudo mas mesmo assim, bom cinema.

 

A falta de meios e a vida cada vez mais difícil não o ajudava a encarar com o melhor dos humores as constantes provocações do filho ainda pequeno mas já um fiel amante de várias emissões televisivas, a única distracção numa casa de recursos abaixo de modestos. “Não era melhor comprares uma nova? Eu quero uma televisão que fale comigo...” insistia o miúdo logo desconsolado com a resposta peremptória do pai: “A televisão não fala contigo, fala só...”

 

Volta e meia no auge da sua frustração ele dava pancadas nos painéis laterais da velha televisão, numa interpelação patética àquela emudecida aparelhagem,  tendo como única resposta a desfragmentação da imagem, a sua decomposição em quadrados irregulares como um puzzle a desfazer-se... Um ruído de estática chegava aos seus ouvidos mas também esses sons incoerentes se interrompiam sem que o fluxo da linguagem fosse estabelecido para seu grande descontentamento. O miúdo não conseguia no entanto resistir ao fascínio do pequeno ecrã luminoso, chegando ao ponto de ler os lábios dos locutores e dos intervenientes nas cenas que mais apreciava. Até dos programas musicais seus favoritos ele mentalmente traduzia a sonoridade em falta pela imitação dos movimentos dos dançarinos, imaginando através da comunicação do ritmo a música que não podia ouvir. 

 

Quando apareceu no ecrãzinho uma jovem linda de morrer que respondia às perguntas do entrevistador, o miúdo logo sentiu a ferver toda a sua inventiva imaginação. Colocou-se no lugar do seu interlocutor fazendo ele as perguntas que queria ver respondidas pela beleza que enchia aquela caixinha de surpresas com o seu sorriso. A conversa surgiu natural, “miss eu gosto muito de si... acha que eu sou novo demais?” A jovem riu do atrevimento e respondeu sem malícia “não, a idade não importa, o que importa é o sentimento...”. Estava a correr bem a conversa e o miúdo com alguma circunspecção quase ciciava aos ouvidos da sua entrevistada: “mas as pessoas vão dizer que eu estou a sonhar... diga-me por favor, posso esperar, posso ter alguma esperança?” Novamente o riso, aquela luz que dispensava audições “com a tua idade, só tens mesmo que esperar... essa é a base de toda a felicidade”. O miúdo agradecia, os olhares entre ambos, dispensam as palavras, o entrevistador agradecia com um cumprimento mas o miúdo, no lugar dele, continuava imaginariamente a segurar-lhe a mão, a imagem da jovem subitamente congelada parecia eternizar o seu sorriso de desafio. O miúdo estendeu a mão para a tocar enquanto choroso se limitou a implorar: “fala, fala comigo!”

 

The man spoke without pause, his hands and arms also summoned to accompany the words that sprouted in silence. Only the ceaseless motion of his lips denounced that he was speaking... What was he saying, questioned the boy in front of the silent television victimized by an infuriating malfunction whose repair was continually put off by his father who, in the evening, delighted in subtitled films, enjoying the plot, the strength of the dialogues, the looks, the gestures and the usual rapture of the final scenes that, in a second, gave away the full extent of the intrigue. Silent cinema, but still, good cinema. Poverty and an increasingly difficult life did not help the father face with the best of moods the constant provocations of his son who, though very young, was already a faithful lover of several television shows, the only distraction in a household of below modest resources. “Shouldn’t you buy a new one? I want a television that talks to me...” insisted the boy, soon disheartened by his father’s peremptory reply: “Television doesn’t talk to you, it just talks...”. Every now and then, at the peak of his frustration, the boy would hit the side panels of the old television in a pathetic appeal to the muted apparatus, receiving as the only response the defragmentation of the image, which decomposed into irregular squares like a jigsaw puzzle come undone. A static noise reached his ears, but these incoherent sounds eventually died down without restoring the flow of language, to his great discontentment. The boy couldn’t, however, resist the fascination of the small luminous screen, to the point of reading the lips of the presenters and the actors in the scenes that he liked most. Even the missing sounds of his favorite music programs were interpreted by imitating the movements of the dancers, imagining through the communication of rhythm the music he could not hear. One day, when a gorgeous young woman appeared on the screen in an interview, the boy felt the boil of his entire inventive imagination. He put himself in the place of the interviewer, asking the questions that he wanted the beauty that filled that little box of surprises with her smile to answer. The conversation came naturally, “Miss, I really like you... do you think I’m too young?” The young woman laughed at the audacity and answered without malice, “No, age doesn’t matter, what matters is the feeling...”. The conversation was going well, and the boy, with some circumspection, almost whispered in the ears of his interviewee: “But people will say that I’m dreaming... please tell me, can I wait, can I have any hope?” Again laughter, that light that dispensed sound, “At your age, you just have to wait ... that’s the basis of all happiness.” The boy was grateful, the looks exchanged between the two dismissed words, the interviewer was thanking her for participating, but the boy, in his imagination, continued to hold her hand. The suddenly frozen image of the girl seemed to eternalize her defiant smile. The boy held out his actual hand to touch her as he whimpered and pleaded: “Talk, talk to me!”.

 

PUBLICADO NA REVISTA AUTRAL, (JAN/FEV 2018) O MAGAZINE DA TAAG, A COMPANHIA QUE VOA COMIGO!

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