Ouro, incenso e mirra

January 6, 2018

 Se os reis magos, vindos de longe, chegassem hoje a Angola para saudar o ano que acaba de nascer, haviam de trazer os mesmos presentes com que há dois mil anos brindaram o menino Jesus.

Segundo São Mateus, os magos quando “viram o menino com Maria, sua mãe, prostraram-se diante dele e, abrindo os seus tesouros, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra“ (Mateus 2-11). Para uma criança deitada numas palhinhas, num cenário de completo despojamento em que até o burro e a vaquinha foram criados pela imaginação popular para com o seu bafo quente atenuarem a noite gélida de Belém, tais presentes até fariam bem pouco sentido. Umas mantas e alguns cobertores ajudariam muito mais. Por isso, muito escreveram  os entendidos sobre o significado místico de tais ofertas cujo valor simbólico todos aceitamos no contexto da epifania do Senhor, ou seja, como introito da revelação do Deus menino: o ouro para homenagear a sua realeza (dos Judeus ou de todos os homens, em todo o caso, como asseverado diante de Pilatos, um reino que não era deste mundo), o incenso para reconhecer a sua divindade, pois o incenso é o perfume que sobe aos céus nos sacrifícios ao Altíssimo e, finalmente, a mirra  para confirmar a sua humanidade mortal, pois com ela se embalsamavam os corpos dos mortos (Jesus ao ser depositado no sepulcro foi embalsamado com mirra e aloés – João 19-39).

 Os magos haviam de chegar à cidade alta, parar diante dos portões do paço presidencial, apearem-se das suas bem ajaezadas montadas e, repetindo o secular ritual, levarem os seus tesouros até ao actual ocupante do palácio que, alertado pelo alarido da multidão que acompanhava fascinada a estranha caravana, viera ao seu encontro com toda a humildade e a mais sincera apreciação. Mais tarde e depois de concluídas as cerimónias protocolares, convocaria os seus mais próximos conselheiros para ouvir deles a explicação de tão extraordinárias oferendas.

O ouro é o símbolo da realeza e, portanto, também, da nossa soberania que só é real na medida em que o PIB do país, isto é, o valor produzido em Angola, for capaz de cobrir todas as despesas do Estado... Quando tal não suceda, resta o recurso ao endividamento que estará sempre na proporção inversa da perda da nossa liberdade económica. Por essa razão constantemente se fala em diversificação. Até se diz que desde que esta política foi traçada (no papel) já não somos dependentes do petróleo. Ora, valha a verdade, terão lembrado os astrólogos vindos do oriente e que de petróleo devem saber melhor do que ninguém, Angola terá que continuar a depender do seu petróleo por muitos e bons anos e, particularmente em 2018, quando as receitas da diversificação, a passo de caracol, não chegarão para preencher o buraco de um dente. Serão, assim, de esperar, medidas corajosas e duras, sacrifícios antes inimagináveis, para que o fosso entre o que se ganha e o que se tem de continuar a gastar, possa ser superado a curto prazo. A longo prazo poderemos ser todos muito ricos mas, provavelmente, já não estaremos no mundo dos vivos onde o dinheiro faz tanta falta!

Daí que o incenso seja um presente indispensável, explicam os conselheiros: com tanto sacrifício pela pátria, tanto cheiro acre no ar, é preciso perfumar o ambiente, elevando a fasquia das nossas realizações não em 2020 ou depois em 2030, mas já em 2018. O incenso é a espiritualidade e com ela a atitude persistente e pertinaz em busca de objectivos, curtos mas incisivos. Cada um dos ministros, tal como os sacerdotes do templo, tem uma missão a cumprir e essa é a de fazer felizes os angolanos que agora acorrem cantando hossanas mas cedo farão soar as marteladas do seu descontentamento sempre que as promessas não forem cumpridas. Muito sábia a decisão de fazer os ministros responderem perante os parlamentares. Para além de manter os Deputados atentos e ocupados, estarão criadas as condições para fazer de alguns ministros os bodes expiatórios que continuadamente assegurem a redenção colectiva! Não haverá moções de censura ao Executivo porque este não depende da Assembleia Nacional, mas os seus auxiliares que não alcançarem reconhecimento bastante pelo seu mérito pessoal, serão substituídos tantas as vezes quanto a  insatisfação, a desilusão e a frustração dos governados assim o exigir. Haja incenso para tanto odor sacrificial.

Por fim a mirra. A nossa mortalidade é outro elo de ponderação. Afinal, todos morremos, sejam os que constituíram o poder como os que o ocupam ainda e agora. Por isso o momento mais precioso  e imperdível é o presente, aqueles instantes em que podemos agir, sem medo de falhar. Aqui se inclui o respeito pelos que nos precederam  e foram crucialmente importantes no momento das suas vidas e nas suas circunstâncias. Num país como o nosso, em que o sentimento de reconciliação é absolutamente indispensável, devemos admitir que não haverá verdadeira reconciliação sem respeito pelos que já partiram, apesar das controvérsias que possam suscitar, pois fazem parte da nossa história. É preciso que a mirra que impede a corrupção física não consinta igualmente a corrupção da memória.

Todos estes presentes são, por conseguinte, oferendas de justiça, o valor a erguer às alturas neste novo ano. Justiça para todos os angolanos, tratando-os não apenas por igual, mas pensando primeiro nos que mais precisam, pensando menos em eleitores e mais nos cidadãos. Dos nossos vinte e cinco milhões mais de metade são crianças e jovens sem idade de votar. Para que o mundo nos faça justiça devemos ser capazes cá dentro, no nosso “reino”, saber fazê-la e bem.

 

A publicar no semanário VANGUARDA de 12 de janeiro 2018

 

 

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