Quem quer ser milionário... e patriota?

December 30, 2017

 

Não, não é o nome de um novo concurso de televisão, mas de um repto que tem todos os ingredientes para suscitar a mais extraordinária audiência nacional e internacional, já no princípio do ano! 

Qualquer semelhança com os game-shows mais conhecidos, como quem quer ser milionário, um contra todos, o elo mais fraco, ou a queda do dinheiro, não será pura coincidência porque este desafio vai ter um pouco de tudo. Com efeito, os seus potenciais concorrentes já ganharam todos verdadeiras fortunas e o jogo consiste na ultrapassagem de uma  série de obstáculos, de modo a... poderem conservá-las!

Como em qualquer concurso deste tipo haverá perguntas e um leque de respostas possíveis sendo que, como é habitual, apenas uma será acertada. Só a resposta certa a todas as questões qualificará o concorrente para o grande prémio: o reconhecimento público como milionário e patriota.

Infelizmente isto não é um jogo mas uma situação muito séria que só metaforicamente se poderá comparar a um teste ou a um quebra-cabeças. Embora seja também um teste à inteligência dos concorrentes, não será a mesma coisa que jogar ao monopólio ou ao trivial pursuit à volta de uma mesa de amigos. Isto é particularmente difícil porque o que realmente está em jogo não são as pessoas mas o dinheiro e este, como bem sabemos, não tem pátria! Os concorrentes são todos boas pessoas, ou pelo menos eram, até acumularem quantias tão elevadas que os tornaram pessoas diferentes. Em vez de possuírem dinheiro para produzir riqueza passaram a ser possuídas por ele e ainda por cima, na esmagadora maioria dos casos de forma improdutiva.  E isso de serem tão ricas, tornou-as  pessoas diferentes porque, como o diz categoricamente o evangelista São Mateus, ninguém pode servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro. Ou odiará um e amará o outro ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro (Mateus 6-24). Quem faz da sua fortuna o seu tesouro e o coloca a recato aí terá sempre preso o seu coração (Mateus 6-21 e Lucas 123-34).  Há um trecho no Evangelho de Mateus que sempre recordo como a passagem de um filme admirável: um homem procura Jesus e pergunta-lhe: “Mestre, que boa acção poderei praticar para que eu tenha a vida eterna?” Jesus traindo alguma impaciência disse-lhe: “Porque me interrogas acerca do bem? O bem é só uma coisa. Se queres entrar na vida eterna , cumpre os mandamentos”. O seu interlocutor não se dá por achado e interroga: “Quais?” Jesus olha-o com indulgência, pois era um jovem, e enuncia um a um os principais mandamentos. “Eu já cumpro tudo isso” declara, então, o jovem com visível satisfação. “Que me falta ainda?” Com infinita paciência diz-lhe então Jesus o que ele, jovem inteligente e excelente pessoa devia saber antes de perguntar: “Se queres ser perfeito, vai e vende todos os teus haveres e dá o dinheiro aos mendigos e terás um tesouro nos céus”. O epílogo deste episódio é deslumbrantemente elucidativo: “Tendo ouvido estas palavras o jovem afastou-se entristecido. Pois ele tinha muitos bens” (Mateus 19-16). O Evangelista não diz como Jesus se terá sentido mas podemos imaginar o que terá ficado a pensar.

Assim como no jovem rico e bem intencionado, pesava mais o tesouro enterrado  do que a sua aspiração às coisas do alto, também para os angolanos afortunados a “pátria” celeste pode esperar... e vão ser precisas mais do que as dez pragas do Egipto para os capitais expatriados empreenderem o seu itinerário de regresso à pátria bem amada. Recordo, a este propósito, um discurso de Holden Roberto em 2004 que ninguém terá escutado: “Compreendemos (...) a actual cruzada do Governo em busca do investimento privado lá onde quer que ele exista, mesmo dos angolanos com posses no exterior do País. Mas temos como Oposição o dever grave de velar, prevenir e denunciar a excessiva associação de interesses entre o Governo e determinada clientela, civil e militar, que apenas tem servido para contrair ainda mais os recursos disponíveis para financiar a actividade social do Estado que devia ser a primeira obrigação deste ou de qualquer Governo, no passado ou no futuro. A pouca transparência dos negócios do Estado conduzidos pelo actual Governo, a adjudicação de grandes contratos e serviços por ajuste directo, o pouco respeito pela legislação nesta matéria que confere sempre uma abertura ou uma alternativa ao Ministro responsável transforma o Governo numa agência de ganhos ilícitos através de comissões cobradas sobre os preços dos contratos, com grave prejuízo para os cofres do Estado e repercutindo negativa e dolorosamente sobre os cidadãos que, mesmo que não paguem impostos a mais por isso ficam automaticamente reduzidos nas suas expectativas de melhores serviços públicos. (...) Tudo se passa debaixo da linha do nosso horizonte visual que é também a linha do poder. Infelizmente o sol em Angola quando se levanta acima dessa linha não brilha para todos ou, pelo menos, não brilha para todos da mesma maneira. (...) A tal ponto que um órgão de comunicação, substituindo-se à própria Oposição silenciosa, denunciou a existência dos nossos milionários cujo maior escândalo não será tanto o dos montantes aparentemente por si acumulados, mas a forma como poderão ter sido adquiridos. A pretendida captação desses capitais presumidamente colocados no estrangeiro, através de incentivos para a sua deslocação e investimento em Angola, apesar de todo o ar de implícita amnistia que subtilmente encerra, não passa no entanto de mais uma boa intenção deste Governo destinada a nenhuma concretização. Recusando ir ao encontro da mão que os enriqueceu, seja por ingratidão humana habitual ou por ignorância de como investir, pois que se trata na maioria dos casos de gente enriquecida sem os necessários conhecimentos para produzir riqueza própria, a maioria dos nossos milionários estão condenados a viver na pobreza nacional sempre a caminho do próximo aeroporto.”

O mais-velho Holden era, contudo, um sonhador de olhos abertos, e procurou contrariar o seu próprio pessimismo apresentando o esboço de uma instituição financeira capaz de absorver os capitais cujos titulares não pudessem ou não quisessem aplica-los em investimentos privados directos. Sem prejuízo dos respectivos titulares e preservando até a sua confidencialidade.

Volvidos tantos anos, quase parece surreal o desafio deste momento. Continua no entanto actual o pensamento de Jesus, vendo o jovem milionário afastar-se curvado ao peso do seu tesouro: “o que adianta uma pessoa ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma? (Marcos, 8-36; Mateus 16-26). Assim também, de que valerá a um angolano ser milionário se o seu tesouro  não for plantado na terra que o viu nascer, que o viu crescer, que o viu brincar e magoar-se, como cantava Teta Lando, a terra que viu o seu pai morrer e pela qual lutou....

 

 

Publicado no VANGUARDA de 29 de Dezembro de 2017

 

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