O nome do jogo

December 16, 2017

 

Não há ninguém que não jogue ou tenha jogado futebol, correndo para trás e para a frente, mesmo num campo pelado ou improvisado, atrás de uma bola para obsessivamente tentar enfiá-la numa baliza feita de dois postes e uma trave que parece enorme mas se torna diminuta aos olhos ambiciosos dos melhores pontas de lança. Isto é assim porque a um ataque há sempre uma defesa e em derradeira instância a intervenção de um guarda redes capaz de voar e com um safanão afastar da sua trajectória fatal o esférico disparado, fazendo levantar a multidão. De espanto e decepção para uns, admiração e euforia para outros. Todos jogamos sim e podemos jogar porque jogar é fácil, o que é realmente difícil é ganhar o jogo!

Hoje todos reconhecemos que não bastam boas pernas e correr kilómetros durante noventa minutos para assegurar uma vitória. É verdadeiramente essencial e imprescindível o conhecimento do adversário, a sua forma de jogar, perceber no maior detalhe as suas qualidades e as suas vulnerabilidades para as poder contrariar e explorar e delas tirar vantagem. Para isso é preciso que cada jogador tenha e exiba as características adequadas e saiba qual a sua posição no terreno para antecipar e interceptar as linhas de passe, e logo que tenha a posse da bola repita as jogadas que mentalmente lhe foram transmitidas e repetidas pelo treinador e depois as ensaie no campo até à exaustão.

Visto deste ângulo da antevisão e da preparação do jogo, o futebol deixa de ser tão simples. Se dúvidas houvesse, bastaria prestar atenção aos comentários de bastidores no seguimento da realização das partidas, por entendidos na matéria que revelam como o jogo e o resultado poderia ter sido outro se a estratégia tivesse sido diferente. É claro como a água que é sempre muito mais fácil falar depois do jogo e apontar os erros cometidos do que os antecipar e prever. Por isso mesmo o treinador é cada vez mais o factor determinante de um desfecho que se vive desde o primeiro ao último minuto ou mesmo até ao último segundo.

O interessante de tudo isto é como uma coisa tão fácil como dar chutos numa bola para a fazer balançar numa rede acabe por requerer, para se ganhar o jogo, de autênticos especialistas, recrutados conforme a ambição dos clubes, entre os melhores, disponíveis num verdadeiro mercado internacional, não importando o país de onde são importados. Futebol do melhor do mundo como o espanhol, por exemplo, o Real de Madrid tem um treinador franco-argelino que já foi seu jogador e o “Barça” teve como treinador nos seus gloriosos anos de “Dream Team” o holandês Joahan Cruyff a quem o governo regional catalão atribuiu a Cruz de São Jorge em reconhecimento pelos seus feitos. O Atlético de Madrid tem presentemente como treinador o irrequieto argentino Diego Simeone e os dois Manchesters, o City e o United, têm dois treinadores peninsulares, Pepe Guardiola e José Mourinho. Na Inglaterra, um dos seus clubes mais prestigiados, o Liverpool, tem como treinador o famoso antigo jogador alemão Jurgen Klopp que vai enfrentar o F. C. Do Porto na próxima jornada das Champions.

O mesmo se diga das próprias selecções, onde embora só possam jogar nacionais, se admitem sem qualquer preconceito treinadores estrangeiros. Por exemplo a selecção portuguesa já teve como treinador o fogoso brasileiro Luís Filipe Scolari e Carlos Queiroz que lhe sucedeu é desde há vários anos treinador da selecção do Irão com a qual provavelmente se cruzará Portugal no mundial da Rússia no próximo ano.

Também no campeonato português há um treinador angolano, Lito Vidigal, que já foi o responsável pela selecção angolana entre 2011 e 2012 embora sem grande sucesso. Até parece que em Angola também é verdade que “ninguém é bom profeta na sua terra...”. A confirmá-lo de certo modo, foi esta semana revelado o novo treinador dos “Palancas”, o sérvio Srdjan Vasilievic que substitui o brasileiro Beto Bianchi.

Não deixa de ser paradoxal que para o maior símbolo de afirmação patriótica de qualquer país, na actualidade, a sua selecção de futebol, em Angola, como em qualquer outra parte do mundo, seja irrelevante a nacionalidade de quem a estabelece, pela escolha dos seus jogadores, e a orienta. O que conta, para efeitos nacionais, é o resultado e o que realmente importa são os golos marcados, a nacionalidade dos pés que disparam o esférico para o fundo das redes. Mais uma vez se conclui que jogar é fácil e ganhar muito mais difícil o que todos sabemos quanto, especialmente em Angola que ainda vamos ver se será desta que nos qualificamos no CHAN e poderemos sonhar com o CAN.

Outro domínio onde todos parecem saber as regras do jogo e dar perfeita execução aos lances é o da política em geral e da governação em particular. Governação tanto no âmbito nacional, como local. Em Angola, como no resto do mundo. O que se aceita com naturalidade no futebol não se aceita na governação como se esta fosse mais fácil que marcar golos. Assim como nas bancadas da comunicação social e das redes sociais também não faltam os comentadores que, tal como no futebol, estão prontos a dar a última palavra sobre qualquer lance em que a vida política é fértil. O paralelismo pode não ser inteiramente pertinente porque a governação parece não  ser um jogo, não há duas equipas em confronto, controladas por um árbitro para que não haja excessos e não há um resultado em consequência da competição entre duas partes. Isso tudo é verdade mas a governação não deixa de ser um desafio constante, renovado em cada jornada, contra todas as debilidades que em cada sector – seja a saúde, a educação, a segurança e até a banca e as finanças – é preciso ultrapassar, marcar a diferença e vencer. Ninguém duvida que para ganhar cada um desses combates é preciso aliar estratégia e táctica, saber dar a volta a mil e uma situações que se deparam mas que podem e devem ser antecipadas, estudadas de uma ponta à outra, da frente e do avesso. Treinadores, aqui designados assessores ou com outra denominação, são necessários em qualquer âmbito decisório porque decisões erradas são como um passes falhados, perde-se a posse da bola e daí à derrota é um passo. Treinadores precisam-se, pois, para que os decisores e executantes no campo saiam vencedores. O problema é que é mais fácil escolher os jogadores do que encontrar um bom treinador.  Na maior parte dos casos os assessores são apontados de entre jogadores ainda à experiência, jogando no escalão júnior e que, forçosamente, sabem ainda menos que os jogadores em campo. Poderão ser bons ajudantes mas não são o que se espera de um “spin doctor”, um especialista ou perito na matéria. Alguém que saiba a diferença entre “yes you CHAN”...e “Yes you CAN”!

 

 

Publicado no VANGUARDA de 15 de Dezembro de 2017

 

 

 

 

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Em Destaque

Junto ao Rio Catumbela...

April 3, 2017

1/4
Please reload

Posts Recentes

November 12, 2019

November 6, 2019

September 10, 2019

June 3, 2019

December 22, 2018

Please reload

Arquivo