Golpe de Predestinação

October 28, 2017

 

Ao contrário do que aconteceu com Deus Todo Poderoso nos seis dias em que trabalhou para criar o mundo, as suas maravilhas mas também as cavernas do universo que ainda hoje nos assustam, como sempre assusta o que nos é desconhecido,  o nosso Presidente da República não se pode limitar a dizer faça-se... e as coisas aparecerem feitas, como a luz, a terra, o mar, a erva com as suas sementes, as árvores de fruto, as estrelas, os peixes e as aves, os outros seres vivos e até os monstros marinhos... até que do barro molhado fez surgir o homem e por fim a sua obra prima que por ironia foi a última... Compreende-se que depois de criar a mulher, até Deus, o Infatigável, precisou de um dia de descanso... Aliás, na sua eterna previdência o próprio Deus ao sétimo dia, batendo as palmas das suas mãos divinas, proclamou que já fizera a sua parte, agora é convosco, ou, nas suas própria palavras “crescei e multiplicai-vos”. Até esta sua atitude deverá ser adequadamente interpretada, pois, como nos recorda a Bíblia e o Corão, a criação não dispensa nunca a oficina de manutenção... Deus não se limitou a criar o mundo mas mantém-no pelo tempo que Ele quer, a criação está definitivamente ligada à sua continuação e durabilidade.

Para o nosso Presidente a manutenção tem outras designações: direcção, superintendência e tutela, o que quer dizer que nada existe ou acontece na terra angolana que não esteja, de forma mais directa ou indirecta, com maior ou menor intensidade, sob o seu poder e supervisão. Não como Deus, a quem não passaria despercebido um simples passarinho voando no céu angolano. Nos tempos bíblicos, cinco pardais eram vendidos por duas moedas, e a sua insignificância serviu a Jesus para ilustrar que nada escapava à supervisão divina (Lucas 12.6).

O Presidente tem, porém, tal como Deus, o poder de se fazer representar, o poder de delegar nos homens e mulheres a quem confia as pesadas pastas ministeriais do seu governo. E, tal como Deus, também o Presidente não abdica da responsabilidade própria do seus Ministros. Poderia pensar-se que Deus, do alto da sua infinita sapiência não poderia nunca enganar-se nas suas escolhas. Os escolhidos seriam sempre predestinados. Por um golpe de predestinação as falhas estariam automaticamente excluídas. Contudo, não faltam exemplos na Bíblia de grandes bênçãos dadas a homens a quem por uma negligência aparentemente pequena e insignificante perderam, como Esaú o seu direito de primogenitura, ou Saul o seu reino... Por maioria de razão, o mesmo pode acontecer com os Ministros, cujo título tem a reminiscência profundamente religiosa de servos ao serviço da comunidade. Aliás, basta reler e meditar no discurso do estado da Nação pronunciado solenemente na Casa das Leis na abertura da nossa IV Legislatura em meio século de independência, para nos darmos conta das proporções bíblicas do programa do novo Chefe do Estado. O Presidente diz e repete que não descansará enquanto não encontrar o caminho que leve os seus cidadãos de volta ao trilho do progresso  do desenvolvimento. Todavia, o Presidente não é Deus e já nos contentaríamos com um profeta, um homem que vê para lá dos seus limites de espaço e do tempo.  Em todos os domínios da governação que descreve no seu discurso, da administração central à local, da educação à saúde, o que mais transparece é a imagem de uma ansiosa busca de processos, mecanismos ou estratégias de que dependerá a realização nos nossos dias de todas as promessas feitas. É aí que entram os novos Ministros, pois eles são, desde já, os responsáveis por delinear a estratégia para se conseguir a desejada estabilidade macroeconómica, para estabelecerem os processos de promover as exportações e substituir as importações, e definirem os mecanismos para canalizar os recursos disponíveis para o que é realmente necessário e não supérfluo...

A minha leitura do discurso do Presidente é por isso profética, no sentido de que todo ele aponta, muito mais para os sacrifícios que será preciso realizar a todos os níveis, do que para imediatos resultados que todos desejaríamos beneficiar. Cinco anos de sacrifícios, talvez dez, só mesmo Deus sabe quando é que as vacas gordas voltarão a cruzar o rio Kuanza. Ou isso, ou a ilusão de que nos foi dada uma terra onde jorra o petróleo e nas suas entranhas brilham diamantes já lapidados. O leite o e o mel bíblicos também secaram um dia na terra prometida e foi preciso atravessar o deserto em busca do trigo para amassar o pão de cada dia.  Porque lá, no Egipto, um filho de Israel interpretou os sonhos do Faraó e dele se tornou o seu primeiro ministro para executar o seu milagroso plano de poupança de uma percentagem de toda a produção agrícola colhida cada ano nas margens férteis do Nilo.

Foi de um menino, o filho mais novo de Jacob que os irmãos desprezaram e abandonaram à sua sorte numa cisterna que veio a salvação daquele povo naqueles dias de crise de seca e desertificação. Não veio de nenhum doutor saído de uma grande universidade como por vezes acreditamos que vêm as soluções dos nossos dilemas. Acredito que também a nossa salvação virá da geração que desponta em cada uma das mais remotas aldeias do nosso país e que ainda brinca descuidada mas deve ir rapidamente para a escola ao encontro de um professor que lhe ensine os caminhos do futuro. Escutei com imenso agrado o sonho do Presidente de ver nos próximos anos pelo menos duas universidades angolanas na lista das 100 melhores universidades do nosso continente. Sinto, porém, que esse objectivo não é tão importante como seria o de assegurar, imediatamente, o acesso gratuito ao ensino de todas as crianças angolanas, quando ainda mais de um terço delas ainda cresce na sombra triste de um eclipse total do ensino. Não basta refugiarmo-nos na Constituição que se limita a inscrever entre as várias tarefas fundamentais do Estado a de “promover políticas que assegurem o acesso universal ao ensino obrigatório gratuito, nos termos definidos por lei”. Os Ministros e os Deputados estão investidos de uma séria responsabilidade histórica de sacrificarem no altar da Nação tudo o que for justo sacrificar no presente para salvarem o futuro. Escolas e professores para todas as crianças, sem excepção, de Cabinda ao Cunene não só terá o condão de realmente acabar com as assimetrias regionais como lançará a mais sólida fundação do tão desejado desenvolvimento sustentado. Relegar as crianças para um programa de ensino de realização gradual é um pecado social tão grave como o de um pai com diversos filhos que apenas alimentasse alguns condenando os outros a definhar porque os seus meios disponíveis não eram suficientes para todos. Se matar é atentar contra o quinto mandamento, fazê-lo contra os próprios filhos é cometer o mesmo pecado duas vezes, porque é também um suicídio a prazo. O Corão tem até um comando específico quando profere “não mateis os vossos filhos por temor à necessidade”. Os novos Deputados e os Ministros agora nomeados  têm uma oportunidade única e irrepetível que podem aproveitar ou desperdiçar, mas pela qual serão julgados. Uma oportunidade para fazer o que é justo e simples, pois dispensa processos e estratégias. Há que pegar no censo, convocar as famílias e as comunidades e lançar mãos à obra de construir uma escola em cada aldeia por mais recôndita que seja e provê-la com o seu quadro negro, ardósias, cadernos, lápis de cores, e indispensavelmente, o seu professor. Por muito que custe  não há tempo a perder . Que a Pátria os ilumine!

 

 

 

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