Via Láctea

October 13, 2017

 

A semana que passou ficou marcada por uma paragem num semáforo e por um ministro que não tomou posse... mas não é sobre estes dois factos inusitados, talvez não repetíveis no nosso planeta, que escrevo a minha pequena crónica nesta tarde de domingo em que as horas escorrem lentamente e o Sol descendo para o mar vai deixando reflexos nas fachadas espelhadas dos nossos modestos arranha céus. Queria esperar por outra altura para a escrever pois o que me apetecia mesmo era voltar ao processo com milhares de páginas que ando a estudar há vários dias e me faz reviver a tragédia de Romeu e Julieta ao contrário, porque nele não se morre por amor... Mas hoje é domingo e devo parar, como diante de um semáforo, para escutar e olhar para lá das pastas e papeis tal como ficaram desarrumadas na noite passada. Um pouco por isso, não me sinto feliz porque nem a meditação, nem a leitura, nem a televisão me fizeram sentir melhor comigo mesmo, como se estivesse num lugar e num tempo errado. Como se esperasse pela segunda feira para voltar ao processo que empresta algum sentido de utilidade à minha vida... Aproveito para ponderar que dentro em pouco não terei mais processos para estudar e estarei livre como um passarinho que escapa finalmente da gaiola. Lembro-me da cantiga que tantas vezes ouvi na minha infância, de um sabiá que na gaiola fez um buraquinho e voou, voou... indo poisar num abacateiro... fazendo chorar a dona, um menina que, com saudades do bichinho chorou, chorou... Secretamente eu alimentava a esperança de que ele voltasse, mas a cantiguinha não revelava o fim da história, o que me deixava muito insatisfeito. Pensar nisso agora, porém, ajuda-me a sentir-me melhor. Ainda vou a tempo de criar o fim dessa história de amor. Acho que nada pode alegrar mais o espírito do que fazer algo de novo, algo que nunca aconteceu, que brota do nosso pensamento como um tenro caule verde rompendo de uma semente esmorecida e mirrada. Rapidamente, porém, me dou conta que estou a enganar-me a mim próprio, pois, uma coisa é a ficção ou o que desejamos que aconteça e outra bem diferente aquilo que devemos esperar.

 

Oiço uma balada antiga: “Hoje a tristeza não é passageira... e quando chegar a noite, cada estrela parecerá uma lágrima...” Pergunto-me se será assim a minha noite de domingo, quando chegar mais logo à varanda e olhar o céu. Estarei, então, mais feliz? É claro que gostava de estar mais optimista, ver as estrelas brilhando e palpitando como corações apaixonados, esquecer o sofrimento de quem realmente sofre, porque na verdade todos sofremos, mesmo aqueles que têm mais do que precisam e ainda assim pensam que não têm o bastante...

 

Sei, apenas, que as estrelas lá estarão, como há milhões de anos, na sua espiral luminosa como uma nuvem de poeira brilhante, enquanto eu estarei na minha finitude desempenhando o papel que me cabe, como cabe a cada um de nós, na sua profissão, no seu trabalho, lutando pelas suas convicções, esperanças ou apenas sonhos... Fazemo-lo seguindo por um caminho de pedras que, por muito que se pareçam com as estrelas do céu, não passam de inertes e frios pedaços de cascalho.  Custa-me reconhecer a banalidade e a previsibilidade do que faço e do que escrevo, na perseguição quase sempre infrutífera de alguma novidade que dê mais sentido à minha vida. Acontece que o sentido da vida não se descobre sem abertura aos outros, dispensando-lhes um tratamento com consideração,  partilhando ou oferecendo ajuda. Esse é o caminho que tem que ser trilhado e que obriga a muitas paragens para atender os necessitados a quem em circunstância alguma se poderá negar o que todos devemos ter para dar: respeito. Recordo a parábola do juiz que não acreditava em Deus e não tinha respeito por ninguém. Uma viúva o procurava muitas vezes suplicando que lhe fizesse justiça. Durante muito tempo o juiz não fez caso dela mas depois pensou: “Apesar de eu não acreditar em Deus, nem ter consideração por ninguém, como esta viúva me anda a incomodar, vou fazer-lhe justiça para que ela não me faça esgotar a paciência”. E Jesus concluiu esta sua parábola dizendo “ora vejam lá o que faz o mau juiz... Não fará Deus justiça aos seus escolhidos que chamam por ele dia e noite?” Embora esta parábola faça uma distinção entre a justiça dos homens e a justiça de Deus, dela resulta claro que em ambos os casos a justiça não é automática, que demora e que é preciso esperar e constantemente reclamar sem nunca desesperar, porque ela chegue, mesmo vinda de um mau juiz. Ao contrário da justiça divina que com fé podemos sempre esperar que virá, a justiça humana não se alcança sem pedir, sem insistência a tempo e fora de tempo. Não admira, pois, que todos sigam com muita atenção o sentido dos actos que todas as semanas pontuam a vida dos nossos governantes, em cujas mãos acreditamos estar confiado o destino do povo. Quando menos se espera, um acto de consideração e respeito, é um sinal que nos ajuda a confiar que estamos a seguir no caminho certo.

 

Anoitece em Luanda, já não é bem domingo, é mais véspera de segunda-feira, arrumo as pastas e os papeis para o começo de mais uma semana em que desejo volte a acontecer outra coisa de novo. Por enquanto apenas me resta olhar o céu escuro quase sem lua e a nebulosa que nunca verei de perto. Não tão longe de mim, mas na escuridão, estão as pessoas que gravitam por aí e reclamam dia e noite por melhores condições de vida. Afinal, ainda bem que é domingo e não mergulhei na espessura de um processo que me consome e ilusoriamente me satisfaz... Assim, tive tempo para pensar não apenas em mim o que contém alguma novidade. É bem possível que ande no ar uma sensação de mudança e que haja mais gente com esperança que volta a sonhar. Na verdade, qualquer coisa nova é tão importante como uma explosão estelar que traça um inesperado rasto luminoso no firmamento,  como um sinal ou até o presságio de uma qualquer mudança nas nossas vidas ou no nosso universo. Hei-de pensar nisso outra vez, amanhã de manhã, quando voltar a ouvir as sirenes grasnando como gansos selvagens a invadir a cidade alta, alarmando o pulsar tranquilo de quem acordou mais cedo para iniciar mais uma semana de trabalho. Por enquanto saboreio a noite na minha varanda caminhando com um sorriso nos lábios no silêncio da via láctea.

 

 

 

 

 

Publicado no VANGUARDA  de 13 de Outubro de 2017

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Em Destaque

Junto ao Rio Catumbela...

April 3, 2017

1/4
Please reload

Posts Recentes

November 12, 2019

November 6, 2019

September 10, 2019

June 3, 2019

December 22, 2018

Please reload

Arquivo