O PRIMEIRO PASSO

September 15, 2017

 

 

Em 42 anos de independência esta é a segunda vez que é eleito um Presidente e a primeira em que o eleito nunca exerceu antes o cargo de mais alto magistrado da Nação. Cumpriu-se agora a profecia dos “Eagles” que desde o início dos anos setenta entoavam “Johnny come lately, the  new kid in town”...great expectations, everybody’s watching you!”

 

Esta foi mesmo uma canção profética porque “o recém-chegado” é sempre um homem “novo” mesmo para aqueles que já o conheciam antes e todos  (it doesn’t really matter which side you’re on) põem nele as suas esperanças contando não serem desapontados até ao dia em que, como sempre acontece na vida e na democracia, ele também terá de partir (“and they will never forget you, til somebody new comes along”).

 

Estou a escrever ouvindo a canção e, se fosse possível, gostaria que também a pudessem ouvir ao ler-me, porque ela nos embala, cada palavra nos encanta, e seria maravilhoso olhar nos olhos o “new kid” e sentir “the music beginning to play”...

 

Transportado pela toada e pela letra imagino um primeiro passo de dança que vou ensaiando no que escrevo, não me esquecendo de que a realidade dura, nua e crua será eventualmente bem diferente. Também ouvi o discurso do Presidente eleito e percebi que foi mais uma resposta do que uma proposta, mais um alto aí e pára o baile, do que um convite à valsa, tal como eu vejo a política... Mas, afinal, quem sou eu para dizê-lo que não passo de um “hopeless romantic”?

 

Como na balada dos “Eagles”, “people you meet, they all seem to know you, even your old friends treat you like you’re something new...” mas se “you’re looking the other way”... esses corações inquietos ficam perdidos e sem cura (“those restless hearts that never mend”).

 

Imagino, por isso, o Presidente eleito a dar o primeiro passo em direcção aos candidatos que com ele concorreram ao mais elevado cargo deste País, para com cada um, individualmente e com a intimidade de um encontro romântico, ensaiarem uma sintonia com a música que começa a tocar agora... os primeiros compassos de uma harmonia até aqui perdida no barulho do tempo corrente.

 

Não se trata de imaginar um gesto de condescendência, menos ainda um gesto de fraqueza, pois este não é um baile de caridade.  Se pudessem escutar a toada dos “Eagles” seria mais fácil encontrar as palavras certas para definir esse momento apenas sonhado por mim agora...”there’s so many things you should have told her, but night after night you’re willing to hold her, just hold her... tears on your shoulder...” Acontece na vida real perdermos o momento certo para dizer a palavra certa. Não por não sermos sábios, mas por não sermos inspirados. A inspiração, o poder da sugestão, a capacidade de ver e alcançar o infinito não pode ser um exclusivo dos artistas... os políticos têm de ter essa visão, esse golpe de asa que quase sempre só depende de um abrir dos braços e de um pequeno passo adiante.

 

Todos temos diferenças e limitações... é um princípio de conversa... não podemos reconhecê-las e estarmos juntos no mesmo desígnio de salvar Angola do abismo? O abismo que separa ainda os que tudo têm dos que nada possuem? O abismo que nos distancia do desenvolvimento que esta terra nos deve proporcionar? Há tantas respostas que podem ser dadas, nem todas as mais certas, mas que podemos discutir entre nós e também no parlamento e na sociedade civil.

 

Há uma mágoa e um ressentimento “on the street; it sounds so familiar...” Tem sido assim sempre que há eleições! Mais uma razão para esse passo ser dado... Talvez não haja cura para o mal que nos atormenta mas, neste momento, bastaria o conforto de um gesto, um sinal de esperança. Lao Tse dizia que “um caminho de mil kilómetros começa com um primeiro passo”. É nada, um passo, comparado com tanto percurso a percorrer, mas é tudo porque sem ele não haverá percurso. Talvez uma corrida de obstáculos ou, pior ainda, uma divergência de destino que deve ser comum.

 

Mais uma vez ganhou o MPLA que já foi a vanguarda do Povo Angolano na primeira Lei Constitucional e é ainda hoje o partido político dominante apesar da sua hegemonia ser visivelmente contrabalançada por outras forças partidárias que têm progressivamente reforçado o seu apoio popular desde as eleições de 2008.  O estatuto de chefe da oposição deve ser colocado em cima da mesa de qualquer conversa de alto nível e este é o momento para definir essa posição, dignificando o direito à diferença que o Presidente eleito declarou respeitar no seu discurso de vitória. O Presidente da maior força da oposição deve ser ouvido com a regularidade desejável sobre os assuntos mais importantes do Estado antes de serem tomadas decisões pelo titular do Poder Executivo. Não basta deixar o convívio político ao parlamento e confinar o diálogo à discussão e aprovação das leis. A administração do Estado, quer a nível central como local, deve ser marcada pelo respeito do princípio da igualdade de todos os cidadãos que não deve ser apenas garantido pelos tribunais decidindo, quase sempre tarde, situações que bem podem ser evitadas com um diálogo antecipado. O nosso País pode estar doente mas, a partir de agora, pode e deve ser mais previdente. Quatro olhos, veem melhor que dois... É isso que o Presidente eleito pode dizer aos seus interlocutores, neste início de uma época em que dele se esperam coisas novas...

 

“Johnny come lately, the new kid in Town,

Everibody loves you, so don’t let them down!”

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