Straight from the heart

June 29, 2017

 

Há dois personagens a quem o nariz grande se colou à imagem de grande mentiroso: Pinóquio e Cyrano... ambos dispensam apresentações: o primeiro, inventado por Carlo Collodi no século XIX, era o boneco de madeira que queria ser um menino de verdade e que só lá chegou passando por várias mentiras, enquanto embrulhado em aventuras com o gato e a raposa e outros meliantes que não davam um segundo de descanso à sua consciência, na pessoa do sempre preocupado grilo falante! O segundo, uma criatura da mesma época, do inspirado Edmond Rostand, nasceu para as letras como o oficial e cavalheiro apaixonado pela bela Roxane a quem dedicava os seus versos arrebatados e os mais ardentes galanteios mas, pela terrível força do destino, destinados a ser ouvidos da boca de um jovem e belo cadete do seu regimento sob protecção do próprio Cyrano, a pedido da ingénua Roxane. Cyrano tão valoroso com a espada como hábil com a pena, embora tendo a noção perfeita da sua fealdade, o que não o impediu de ter despachado centenas de atrevidos que haviam cometido a temeridade de fazer apreciações menos decorosas ao seu exagerado ornamento facial, acabou por fazer jus ao seu grande nariz, criando ele próprio a grande mentira de, a coberto da escuridão, transformar o inexperiente cadete num verdadeiro declamador de palavras inflamadas de amor e paixão, que chegavam como um canto mavioso aos ouvidos de uma deslumbrada Roxane, debruçada na sua varanda, mal reconhecendo o autor de tal melodia. Cyrano, escondido da lua sob os ramos frondosos de uma árvore que subia até à balaustrada, quase empurrou por gestos e sussurros o amante poeticamente analfabeto mas dotado de uma juventude e beleza com as quais não podia competir a trepar pelo beijo que lá em cima o esperava como prémio de tanta e tão amorosa eloquência.

 

É difícil, pois, saber quem mais amava a romântica Roxane... se o jovem cadete que antes de partir para o seu encontro fatal no campo de batalha a enredou entre os seus braços apaixonados, mesmo recorrendo a talentos alheios, ... se o temível espadachim, seu comandante que desafiava este mundo e o outro pela sua "panache" como ele chamava à sua pluma que simbolizava a sua alma solitária,... e que em silêncio sacrificara o seu amor pelo amor daquela a quem queria mais que tudo. Em plena guerra, Cyrano sumia como ave nocturna atravessando as linhas inimigas para fazer chegar a Roxane as cartas de amor sofrido que ele próprio ditava ao jovem militar por quem tudo faria, mesmo em vão, por cobrir com a sua asa protectora... Por fim, também ele ferido mortalmente, não perdeu a oportunidade de ir consolar Roxane e vê-la uma vez mais, que a tanto se resignara ter, como único prémio a que ainda se sentia com direito. E aí dá-se uma reviravolta extraordinária, inesperada.... Mal suportando as dores da ferida que sangra abundantemente e que Roxane não pode ver pois está sentado e envolto na sua capa... a jovem lê para Cyrano com a voz embargada a última carta recebida do seu apaixonado e infeliz cadete... Os seus olhos humedecem-se com as lágrimas que não a deixam continuar a leitura, voltando as costas ao seu velho amigo para atenuar o embaraço que a aflige...  e é nesse mágico instante que, sem o olhar de frente, ela escuta, com espanto e terror,  as palavras que concluem aquela ardente missiva de despedida.... Afinal, aquelas palavras, todas as palavras que recebera e ouvira, desde as primeiras balbuciadas quase a medo na noite em que o jovem desaparecido lhe declarou eloquentemente os seus sentimentos de tal modo que as palavras subiram até ela como um cordão de chamas por onde ele trepou até ao seu coração.... não eram mais do que um enfeite, plumas voando sobre o seu chapéu de mosqueteiro.... o seu enamorado autor era aquele homem velho e narigudo para quem ela pressurosa e emocionada se voltou, como se fosse vê-lo pela primeira vez. Logo se apercebeu, porém, que aquela seria também a última vez... mas, para Cyrano, valera a pena... o prémio tão desejado estava agora mais próximo do que nunca...

 

Olhou mais uma vez a mulher que ele amara tanto e a quem a fortuna concedera o privilégio de lhe poder dirigir, ainda que por interposta pessoa, todas as palavras que o seu coração exaltado era capaz de compor. Um lampejo de razão fez aflorar-lhe aos lábios um júbilo que quase o tornava belo. Acabara de perceber que entre um beijo que já viria demasiado tarde e a que dificilmente poderia corresponder,  continuaria fiel às palavras. Perante os olhos de Roxane que finalmente contemplavam horrorizados o sangue que lhe encharcava  a camisa correndo-lhe pelas vestes, ainda encontrou palavras de um derradeiro e poético consolo: "Olha, Roxane, ainda me ficou alguma coisa limpa de sangue e que será sempre minha...”  e juntando o gesto à palavra, apanhou o chapéu emplumado desenhando no ar uma vénia que ficou pela dor cortada a meio, concluiu com um sorriso o que em força lhe faltava: “Quando chegar à presença de Deus numa respeitosa reverência faço-a esvoaçar sobre o espelhado chão celestial... a minha panache"!

 

Sim, é verdade que todos têm o seu momento de glória, e que Pinóquio e Cyrano, tiveram os seus... Um será para sempre o menino que realizou o seu sonho... o outro será o velho que se retira do palco da vida com uma reverência, derrotando o seu derradeiro adversário, a morte, não com a espada que o fez temível, mas com a pluma  que o fez poeta!

 

 

 

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