No asteroide 325

June 16, 2017

 Cruzar o espaço sideral, saltitar de estrela em estrela, conhecer os seus imprevisíveis habitantes foi, durante muito tempo, a sua única distracção. Para o Principezinho, porém, apenas a flor, a única que diante dos seus olhos abriu as pétalas vermelhas, era o seu maior fascínio. Ele sabia que existiam, nos outros planetas por onde andarilhou, flores bem diferentes, em cor, em forma, tamanho e perfume, mas aquela era como se tivesse escolhido ser assim, diferente de todas as demais plantadas pela galáxia.... para ser só dele! No asteroide 325, onde parou para dar conta da sua missão ao rei, o Principezinho estava ansioso por seguir viagem para junto dela, mas o solitário monarca cujo manto de arminho cobria todo o asteroide, apercebendo-se da impaciência que se desprendia da atitude apressada daquele súbdito providencial que num instante de inspiração nomeara seu embaixador, logo proferiu uma ordem, no peculiar tom imperial: ordeno-te que te sentes! Aqui mesmo, sobre esta aba do meu manto, e me contes tudo! (1)

 

- Terei que te contar tudo muito rapidamente, meu rei, porque fiz "uma grande viagem sem dormir"...

 

- Pois eu ordeno-te que esqueças o sono, farto de dormir estou eu neste minúsculo recanto espacial, com tantos planetas e estrelas girando à minha volta que até me deixam zonzo...  mal posso conter a minha ânsia de ouvir o teu relato.... o que me dizes do homem mais poderoso da terra?

 

- Olhe, majestade, francamente, ele,  comparado contigo não é nada.... enquanto tu ordenas o universo que se perde pelos confins do espaço, e que à tua voz os astros se movem desenhando no céu elipses brilhantes  como colares de pérolas ou projectam cones de sombra de mil eclipses em cada segundo que passa, o nosso homem dificilmente manda para além das paredes de uma sala, de estranha configuração oval, como se tivesse sido construída para, modestamente, emular o teu reino, sem princípio nem fim!

 

- O quê? Será possível que seja tão ínfimo e desprezível o poder do homem em quem eu depositava as minhas derradeiras esperanças para um pacto universal, juntando as nossas sinergias.... abrindo ao espaço sideral as bases de um contrato multi-estelar.... enfim, coisas que tu não entendes...

 

- Nem quero entender, meu senhor, com o devido respeito que, bem sabes, é imenso... mas, oh rei, tu não imaginas o suplício de um homem tão poderoso, que está dependente a todo o instante de votações e mais votações, no senado e no congresso, eleições periódicas que infernizam a vida de qualquer mortal, quanto mais daqueles para quem esses actos são a única via de sobrevivência... como podes tu, majestade, sonhar sequer, em estabelecer um tratado com um homem que hoje julga que pode e manda em tudo  em todos para descobrir, no dia seguinte, como é incerto e vago o seu poder, tal como a poeira que o vento revolve e cega os olhos dos viajantes, como eu...

 

- Que grande desilusão, o que me contas, quando as minhas ordens eram clara e precisas.... será que lhe disseste tudo, o que eu e o universo dele tanto esperavam....?

 

- Claro, meu rei, disse-lhe tudo e ao ouvido mas ele parecia dar mais importância à chamada telefónica que a todo o momento aguardava.... certamente de um outro presidente todo poderoso....

 

- Não admira, meu rapaz, lá na terra eles estão a competir para mostrar quem é mais democrático... sendo certo que o que cada um realmente quer é ser reconhecido como o mais poderoso e isso parece-me um muito mau caminho.... 

 

- O curioso, majestade, é que na minha viagem à terra, conheci um País em que tudo me pareceu ao contrário, como aquelas árvores que por lá abundam, de raízes retorcidas viradas para o sol, habitado por um povo extraordinário... (2) que ainda se rege pelo costume.... como se os chefes locais ainda governassem por vontade dos deuses... calcule, milhares de aldeias por todo o seu vasto território em que os chefes se sucedem por linhas hereditárias e são os guardiões da sabedoria milenar...

 

- Isso é muito interessante... mas eu só mando nos súbditos que guardo à minha vista....  como é que se governam todos os migrantes que se acumulam e pululam nas grandes urbes que eu vejo crescerem como cogumelos venenosos por toda a terra? 

 

- Isso é verdade e por lá não é diferente....  assim o soba me explicou que, como os embondeiros, as pessoas também se desenraízam  mas, mesmo calcinadas pelo sol, as suas raízes não morreram... e quando chegam as eleições elas  florescem, cobrem-se da esperança de moldar o futuro pelo passado que se conhece, ainda que só por tradição.... e enquanto a tradição for o que ainda é...."

 

-Não haverá grandes surpresas.... é uma conspiração da própria natureza.... essa democracia ainda tem muitos automatismos... é como uma laranja mecânica.... 

 

- Não entendo, majestade....

 

-Quando experimentamos um fruto, e o seu gosto fica gravado na nossa cabeça, não queremos experimentar outro... cria-se uma espécie de automatismo, como quando se diz que o mal conhecido é sempre melhor que o bem que se desconhece, faço-me entender?

 

- Perfeitamente, é o que se passa comigo e com a minha flor.... 

 

- Ora, como o soba te explicou, as pessoas votam em partidos que lhes recordam as suas raízes, os seus sonhos de infância e de juventude.... afinal só aparentemente estão emancipados do poder tradicional... a cultura é uma coisa pegajosa, uma segunda pele.... por isso eles votam em em pessoas com quem se identificam.... e não em programas, que não passam de papeis, onde qualquer um pode escrever todas as palavras bonitas que quiser....

 

- O que não quer dizer que não haja aqueles que estão contra todos, que querem ser diferentes, como também os há por lá e que se abstêm?

 

- Esses têm um problema de raiz, acreditam que são sementes de outra lavra.... a sua democracia não tem nada a ver com os partidos que desprezam e por isso, para eles as eleições são um atraso de vida. Sonham, talvez, com uma primavera em pleno cacimbo.... gostariam de apropriar-se da indiferença com os partidos... como se a abstenção eleitoral pudesse ser a medida negativa da sua força... 

 

- E não pode ser assim?

 

- Em teoria, Principezinho, e isso acontece em muitas eleições por esse mundo fora, mas a democracia no País dos embondeiros é bem engenhosa.... vais ver os partidos disputarem ferozmente o voto de cada eleitor... e, ou eu me engano muito, vendo as coisas pelo meu telescópio, não vai haver qualquer abstenção nessas eleições de que me falas....

 

- Vê-se bem majestade que tu reges o universo como um maestro segue uma partitura musical, mesmo de olhos fechados.... o teu ceptro harmoniza tudo à tua volta... mas agora, com tua licença, é chegado o momento de voltar para a minha flor que me aguarda impaciente, lá longe.... tão longe ainda... naquela pequena estrela ali que palpita, chamando-me para casa....

 

O rei já não ouviu as últimas palavras do Principezinho... cansado, adormeceu e quando acordar vai perguntar-se se não esteve, apenas, a sonhar....

 

 

 

(1) Ver o post "Encontro Improvável"

(2) Ver o post anterior "Viagem ao País das Eleições"

 

Este e os posts anteriores  foram inspirados no conto de Antoine Saint Exupéry, "O Principezinho".

 

A ilustração deste post é da autoria do "Workshop" de Benjamim Sabby

 

 

-  

 

só a amava a ela porque ela, se era pouco era 

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