Este voo não é para as minhas asas

March 30, 2017

 

 

Ultimamente voltei aos meus rudimentos de latim....o meu livro de revelações volta e meia aparece-me com um enunciado ou uma máxima em latim.... Antes latim que grego  apesar de estas duas línguas provirem da mesma árvore.... por exemplo árvore em latim é arbor e em grego erbor.... mater que é mãe, todos sabemos, em grego é meter... quase com a mesma entoação. Ainda assim, sinto-me muito mais familiarizado com o latim desde que o comecei a pronunciar automaticamente nos meus tempos de iniciado.... “non sum dignus”sed libera nos a malo”. Coisas idas de um passado mais que perfeito!  Ontem à noite, porém, com a mão firme na lamparina e as lunetas assestadas sobre as páginas em branco sempre prontas a surpreender-me, voltei a maravilhar-me com aquele verso de Virgílio, o grande poeta romano que em latim dizia mais ou menos assim “feliz aquele que busca a essência das coisas”.  A essência das coisas... não é uma revelação fácil...  a essência pode ser o que está oculto, que existe e os olhos não descobrem.... ou será, antes, procurar o que alguma vez vimos e ansiamos por continuar vendo, sentindo, perseguindo um perfume que  se vai esvaindo no ar, como um cego atrás de uma réstia de luz.... Mas eu não estava nesse momento a pensar em mim, mas em Alighieri Dante, que inconsolável com a perda tão precoce de Beatriz, é encorajado pelo poeta a reencontrá-la, nem que tivesse de revolver a profundas do inferno para ter um vislumbre do Paraíso e da própria Beatriz que só aí o poderia aguardar. Buscar a essência das coisas, descobrir o significado de uma ausência por demais injusta,  era a única coisa que fazia feliz Dante, perante o cortejo de infelicidades infernais que terminariam graças a Deus, no “empíreo” e na contemplação da mulher que tanto amara e que na realidade nunca tivera no seus braços. Seria a mulher da sua vida se a vida não a tivesse levado de si tão cedo, tão inesperadamente, sem uma explicação! E Dante, finalmente, encontra Beatriz que pela mão o conduz e explica o que é afinal o Paraíso. O paraíso não era, ao contrário do que ele suspirava que fosse, o jardim das delícias, onde não faltaria o lago de água pura par lavar-se de todas as escoriações causadas pelo seu doloroso deambular pelo Inferno, onde a teria, enfim, nos seus braços podendo dizer-lhe, olhos nos olhos, quanto a desejava.... Apesar da eternidade o tempo passava também no Paraíso e Beatriz, já não era a menina por quem se apaixonara no primeiro instante em que a vira e tão misteriosamente como lhe aparecera, dera meia volta e desaparecera da sua vista, de tal modo que Dante não sabia se a tinha visto mesmo ou apenas adormecido e sonhado com ela. Apenas se lembrava que Beatriz fora a sua cicerone naquele altíssimo círculo e lhe explicara que o Paraíso era apenas isso, aceitar, aceitar tudo, mesmo aquilo com que jurávamos a pés juntos nunca nos conformaríamos. E que todos teríamos asas para nos encontrarmos porque o céu era infinito. Muito mais infinito que o deserto por onde eu vagueava. Senti que Dante já não estava comigo e estaria por certo viajando lá em cima entre as estrelas rindo da sua divina comédia. Tentei ler mais nas páginas inertes do meu livro de revelações, mas a luz esvaía-se e os traços deixavam de fazer sentido. Pela primeira vez senti-me tão só e tão triste que não esperei pelos primeiros raios matutinos para montar no meu cavalo de cauda empinada lamentando que este voo não seja para as minhas asas...

 

 

 

 

 

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Em Destaque

Junto ao Rio Catumbela...

April 3, 2017

1/4
Please reload

Posts Recentes

November 12, 2019

November 6, 2019

September 10, 2019

June 3, 2019

December 22, 2018

Please reload

Arquivo