A Outra

March 16, 2017

 

Não me refiro  certamente à outra admiravelmente cantada por Matias Damásio e replicada em dueto com Paulo Gonzo... a "outra" mulher com quem vivo todos os dias dá pelo nome de Justiça que aparece aqui retratada num quadro do alemão Lucas Cranach o Velho, porque o seu filho do mesmo nome continuou a usar os pincéis paternos, prolongando um arte em que os traços dos personagens têm tanto de espectacularidade como de ambiguidade. Veja-se esta Justiça, realmente despida de preconceitos, é senhora de uma testa amplíssima reveladora de poderosa inteligência a qual todavia não dispensa a vaidade de um cuidado penteado nem a ostentação de alguns adornos que sublinham uma feminilidade irresistivelmente fascinante.. Aquela espada que na mão de um homem faria dele ou um carrasco impiedoso ou um guerreiro incompassivo... nas mãos daquela mulher apenas a transfigura numa heroína! Na outra mão a balança... como qualquer outra mulher que vai ao mercado ela não se engana nem quer ser enganada. A sua cabeça ligeiramente reclinada, apenas pode significar resignação perante o seu próprio destino de fazer Justiça sem ilhar a quem. O seu olhar não está vendado, como tantas vezes ela aparece representada para significar que é cega...  mas reparem que o seu olhar não está fixado em ninguém em especial... como se estivesse  apenas a ler os seus pensamentos, a dizer mentalmente as palavras que compõe o silogismo em que sempre se traduz uma sentença: a contemplação de duas premissas que geram a fatal conclusão. É um olhar que nem trai pena, nem prazer... mas, ela é, afinal, por tudo o resto  a imagem de uma Justiça desejável. Nunca tinha visto uma Justiça assim e acho que só por isso o Velho Cranach sentiu necessidade de encimar a pintura com o nome do seu retrato em alemão: Gerechtikeit. Com efeito, sem esse letreiro ela poderia facilmente confundir-se com a beleza de uma Vénus com braços, ou com a  ingenuidade de uma Salomé que trocou os seus encantos pela cabeça de João baptista, ou com a vingança contra o opressor de uma astuta e implacável Judite decapitando Holofernes. Ela é, na verdade, não um retrato, mas uma alegoria da Justiça, ou seja, a sua representação sob uma aparência ideal, no caso a aparência sedutora de uma mulher tão bela como implacável.  Apenas me intriga nesta maravilhosa representação que mostra tanto, a única pequena coisa que não se vê.  Alguém já notou o que falta? Começou por me perturbar que mão que segura os pratos da balança me trazia à memória o modo de articular de quem manipula os arames que fazem mover uma marioneta. Ao contrário da mão que segura a espada cingindo o punho com todos os dedos como quem acaricia um ceptro, a mão que tem a balança suspensa esconde o polegar... Sabemos que a posição do polegar, para cima ou par baixo significa aprovação ou desaprovação.... e este eclipse do dedo mais importante da mão não seja casual... até nesse detalhe a Justiça não revela antes o que só no momento certo pode descobrir. Tudo o resto que ela mostra e é muito e belíssimo é paisagem. Voltando ao princípio... a Grechta, nome familiar como eu chamo quem vive ao meu lado há tantos anos, não pára de me surpreender.... "Grechta não me queres dizer, afinal, o teu segredo para continuares assim tão bela e sem uma única ruga?". Ela sorriu, ainda assim sem olhar para mim,  limitando-se a dizer... "porque tu me quiseste assim e eu nunca te decepcionaria.... não seria justo! Além disso, como diz a cantiga que não te cansas de trautear, "eu também tenho o direito de ser feliz!"

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