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  • Onofre Santos

O nome do jogo


Não há ninguém que não jogue ou tenha jogado futebol, correndo para trás e para a frente, mesmo num campo pelado ou improvisado, atrás de uma bola para obsessivamente tentar enfiá-la numa baliza feita de dois postes e uma trave que parece enorme mas se torna diminuta aos olhos ambiciosos dos melhores pontas de lança. Isto é assim porque a um ataque há sempre uma defesa e em derradeira instância a intervenção de um guarda redes capaz de voar e com um safanão afastar da sua trajectória fatal o esférico disparado, fazendo levantar a multidão. De espanto e decepção para uns, admiração e euforia para outros. Todos jogamos sim e podemos jogar porque jogar é fácil, o que é realmente difícil é ganhar o jogo!

Hoje todos reconhecemos que não bastam boas pernas e correr kilómetros durante noventa minutos para assegurar uma vitória. É verdadeiramente essencial e imprescindível o conhecimento do adversário, a sua forma de jogar, perceber no maior detalhe as suas qualidades e as suas vulnerabilidades para as poder contrariar e explorar e delas tirar vantagem. Para isso é preciso que cada jogador tenha e exiba as características adequadas e saiba qual a sua posição no terreno para antecipar e interceptar as linhas de passe, e logo que tenha a posse da bola repita as jogadas que mentalmente lhe foram transmitidas e repetidas pelo treinador e depois as ensaie no campo até à exaustão.

Visto deste ângulo da antevisão e da preparação do jogo, o futebol deixa de ser tão simples. Se dúvidas houvesse, bastaria prestar atenção aos comentários de bastidores no seguimento da realização das partidas, por entendidos na matéria que revelam como o jogo e o resultado poderia ter sido outro se a estratégia tivesse sido diferente. É claro como a água que é sempre muito mais fácil falar depois do jogo e apontar os erros cometidos do que os antecipar e prever. Por isso mesmo o treinador é cada vez mais o factor determinante de um desfecho que se vive desde o primeiro ao último minuto ou mesmo até ao último segundo.

O interessante de tudo isto é como uma coisa tão fácil como dar chutos numa bola para a fazer balançar numa rede acabe por requerer, para se ganhar o jogo, de autênticos especialistas, recrutados conforme a ambição dos clubes, entre os melhores, disponíveis num verdadeiro mercado internacional, não importando o país de onde são importados. Futebol do melhor do mundo como o espanhol, por exemplo, o Real de Madrid tem um treinador franco-argelino que já foi seu jogador e o “Barça” teve como treinador nos seus gloriosos anos de “Dream Team” o holandês Joahan Cruyff a quem o governo regional catalão atribuiu a Cruz de São Jorge em reconhecimento pelos seus feitos. O Atlético de Madrid tem presentemente como treinador o irrequieto argentino Diego Simeone e os dois Manchesters, o City e o United, têm dois treinadores peninsulares, Pepe Guardiola e José Mourinho. Na Inglaterra, um dos seus clubes mais prestigiados, o Liverpool, tem como treinador o famoso antigo jogador alemão Jurgen Klopp que vai enfrentar o F. C. Do Porto na próxima jornada das Champions.

O mesmo se diga das próprias selecções, onde embora só possam jogar nacionais, se admitem sem qualquer preconceito treinadores estrangeiros. Por exemplo a selecção portuguesa já teve como treinador o fogoso brasileiro Luís Filipe Scolari e Carlos Queiroz que lhe sucedeu é desde há vários anos treinador da selecção do Irão com a qual provavelmente se cruzará Portugal no mundial da Rússia no próximo ano.

Também no campeonato português há um treinador angolano, Lito Vidigal, que já foi o responsável pela selecção angolana entre 2011 e 2012 embora sem grande sucesso. Até parece que em Angola também é verdade que “ninguém é bom profeta na sua terra...”. A confirmá-lo de certo modo, foi esta semana revelado o novo treinador dos “Palancas”, o sérvio Srdjan Vasilievic que substitui o brasileiro Beto Bianchi.

Não deixa de ser paradoxal que para o maior símbolo de afirmação patriótica de qualquer país, na actualidade, a sua selecção de futebol, em Angola, como em qualquer outra parte do mundo, seja irrelevante a nacionalidade de quem a estabelece, pela escolha dos seus jogadores, e a orienta. O que conta, para efeitos nacionais, é o resultado e o que realmente importa são os golos marcados, a nacionalidade dos pés que disparam o esférico para o fundo das redes. Mais uma vez se conclui que jogar é fácil e ganhar muito mais difícil o que todos sabemos quanto, especialmente em Angola que ainda vamos ver se será desta que nos qualificamos no CHAN e poderemos sonhar com o CAN.

Outro domínio onde todos parecem saber as regras do jogo e dar perfeita execução aos lances é o da política em geral e da governação em particular. Governação tanto no âmbito nacional, como local. Em Angola, como no resto do mundo. O que se aceita com naturalidade no futebol não se aceita na governação como se esta fosse mais fácil que marcar golos. Assim como nas bancadas da comunicação social e das redes sociais também não faltam os comentadores que, tal como no futebol, estão prontos a dar a última palavra sobre qualquer lance em que a vida política é fértil. O paralelismo pode não ser inteiramente pertinente porque a governação parece não ser um jogo, não há duas equipas em confronto, controladas por um árbitro para que não haja excessos e não há um resultado em consequência da competição entre duas partes. Isso tudo é verdade mas a governação não deixa de ser um desafio constante, renovado em cada jornada, contra todas as debilidades que em cada sector – seja a saúde, a educação, a segurança e até a banca e as finanças – é preciso ultrapassar, marcar a diferença e vencer. Ninguém duvida que para ganhar cada um desses combates é preciso aliar estratégia e táctica, saber dar a volta a mil e uma situações que se deparam mas que podem e devem ser antecipadas, estudadas de uma ponta à outra, da frente e do avesso. Treinadores, aqui designados assessores ou com outra denominação, são necessários em qualquer âmbito decisório porque decisões erradas são como um passes falhados, perde-se a posse da bola e daí à derrota é um passo. Treinadores precisam-se, pois, para que os decisores e executantes no campo saiam vencedores. O problema é que é mais fácil escolher os jogadores do que encontrar um bom treinador. Na maior parte dos casos os assessores são apontados de entre jogadores ainda à experiência, jogando no escalão júnior e que, forçosamente, sabem ainda menos que os jogadores em campo. Poderão ser bons ajudantes mas não são o que se espera de um “spin doctor”, um especialista ou perito na matéria. Alguém que saiba a diferença entre “yes you CHAN”...e “Yes you CAN”!

Publicado no VANGUARDA de 15 de Dezembro de 2017


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