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  • Onofre Santos

Via Láctea


A semana que passou ficou marcada por uma paragem num semáforo e por um ministro que não tomou posse... mas não é sobre estes dois factos inusitados, talvez não repetíveis no nosso planeta, que escrevo a minha pequena crónica nesta tarde de domingo em que as horas escorrem lentamente e o Sol descendo para o mar vai deixando reflexos nas fachadas espelhadas dos nossos modestos arranha céus. Queria esperar por outra altura para a escrever pois o que me apetecia mesmo era voltar ao processo com milhares de páginas que ando a estudar há vários dias e me faz reviver a tragédia de Romeu e Julieta ao contrário, porque nele não se morre por amor... Mas hoje é domingo e devo parar, como diante de um semáforo, para escutar e olhar para lá das pastas e papeis tal como ficaram desarrumadas na noite passada. Um pouco por isso, não me sinto feliz porque nem a meditação, nem a leitura, nem a televisão me fizeram sentir melhor comigo mesmo, como se estivesse num lugar e num tempo errado. Como se esperasse pela segunda feira para voltar ao processo que empresta algum sentido de utilidade à minha vida... Aproveito para ponderar que dentro em pouco não terei mais processos para estudar e estarei livre como um passarinho que escapa finalmente da gaiola. Lembro-me da cantiga que tantas vezes ouvi na minha infância, de um sabiá que na gaiola fez um buraquinho e voou, voou... indo poisar num abacateiro... fazendo chorar a dona, um menina que, com saudades do bichinho chorou, chorou... Secretamente eu alimentava a esperança de que ele voltasse, mas a cantiguinha não revelava o fim da história, o que me deixava muito insatisfeito. Pensar nisso agora, porém, ajuda-me a sentir-me melhor. Ainda vou a tempo de criar o fim dessa história de amor. Acho que nada pode alegrar mais o espírito do que fazer algo de novo, algo que nunca aconteceu, que brota do nosso pensamento como um tenro caule verde rompendo de uma semente esmorecida e mirrada. Rapidamente, porém, me dou conta que estou a enganar-me a mim próprio, pois, uma coisa é a ficção ou o que desejamos que aconteça e outra bem diferente aquilo que devemos esperar.

Oiço uma balada antiga: “Hoje a tristeza não é passageira... e quando chegar a noite, cada estrela parecerá uma lágrima...” Pergunto-me se será assim a minha noite de domingo, quando chegar mais logo à varanda e olhar o céu. Estarei, então, mais feliz? É claro que gostava de estar mais optimista, ver as estrelas brilhando e palpitando como corações apaixonados, esquecer o sofrimento de quem realmente sofre, porque na verdade todos sofremos, mesmo aqueles que têm mais do que precisam e ainda assim pensam que não têm o bastante...

Sei, apenas, que as estrelas lá estarão, como há milhões de anos, na sua espiral luminosa como uma nuvem de poeira brilhante, enquanto eu estarei na minha finitude desempenhando o papel que me cabe, como cabe a cada um de nós, na sua profissão, no seu trabalho, lutando pelas suas convicções, esperanças ou apenas sonhos... Fazemo-lo seguindo por um caminho de pedras que, por muito que se pareçam com as estrelas do céu, não passam de inertes e frios pedaços de cascalho. Custa-me reconhecer a banalidade e a previsibilidade do que faço e do que escrevo, na perseguição quase sempre infrutífera de alguma novidade que dê mais sentido à minha vida. Acontece que o sentido da vida não se descobre sem abertura aos outros, dispensando-lhes um tratamento com consideração, partilhando ou oferecendo ajuda. Esse é o caminho que tem que ser trilhado e que obriga a muitas paragens para atender os necessitados a quem em circunstância alguma se poderá negar o que todos devemos ter para dar: respeito. Recordo a parábola do juiz que não acreditava em Deus e não tinha respeito por ninguém. Uma viúva o procurava muitas vezes suplicando que lhe fizesse justiça. Durante muito tempo o juiz não fez caso dela mas depois pensou: “Apesar de eu não acreditar em Deus, nem ter consideração por ninguém, como esta viúva me anda a incomodar, vou fazer-lhe justiça para que ela não me faça esgotar a paciência”. E Jesus concluiu esta sua parábola dizendo “ora vejam lá o que faz o mau juiz... Não fará Deus justiça aos seus escolhidos que chamam por ele dia e noite?” Embora esta parábola faça uma distinção entre a justiça dos homens e a justiça de Deus, dela resulta claro que em ambos os casos a justiça não é automática, que demora e que é preciso esperar e constantemente reclamar sem nunca desesperar, porque ela chegue, mesmo vinda de um mau juiz. Ao contrário da justiça divina que com fé podemos sempre esperar que virá, a justiça humana não se alcança sem pedir, sem insistência a tempo e fora de tempo. Não admira, pois, que todos sigam com muita atenção o sentido dos actos que todas as semanas pontuam a vida dos nossos governantes, em cujas mãos acreditamos estar confiado o destino do povo. Quando menos se espera, um acto de consideração e respeito, é um sinal que nos ajuda a confiar que estamos a seguir no caminho certo.

Anoitece em Luanda, já não é bem domingo, é mais véspera de segunda-feira, arrumo as pastas e os papeis para o começo de mais uma semana em que desejo volte a acontecer outra coisa de novo. Por enquanto apenas me resta olhar o céu escuro quase sem lua e a nebulosa que nunca verei de perto. Não tão longe de mim, mas na escuridão, estão as pessoas que gravitam por aí e reclamam dia e noite por melhores condições de vida. Afinal, ainda bem que é domingo e não mergulhei na espessura de um processo que me consome e ilusoriamente me satisfaz... Assim, tive tempo para pensar não apenas em mim o que contém alguma novidade. É bem possível que ande no ar uma sensação de mudança e que haja mais gente com esperança que volta a sonhar. Na verdade, qualquer coisa nova é tão importante como uma explosão estelar que traça um inesperado rasto luminoso no firmamento, como um sinal ou até o presságio de uma qualquer mudança nas nossas vidas ou no nosso universo. Hei-de pensar nisso outra vez, amanhã de manhã, quando voltar a ouvir as sirenes grasnando como gansos selvagens a invadir a cidade alta, alarmando o pulsar tranquilo de quem acordou mais cedo para iniciar mais uma semana de trabalho. Por enquanto saboreio a noite na minha varanda caminhando com um sorriso nos lábios no silêncio da via láctea.

Publicado no VANGUARDA de 13 de Outubro de 2017


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